O capítulo da Bulimia

22:23

"Mesmo sendo educada em como a mídia distorce nossa imagem de beleza, ainda sinto o desejo de estar em conformidade com um impossível tipo de corpo"

Há pessoas que não sabem o peso de viver lidando com um distúrbio alimentar.

Com 15 anos, meus problemas de autoimagem começaram. Não se tratava apenas de uma insatisfação com o meu cabelo enrolado ou com a minha falta de habilidade de me maquiar impecavelmente ou de não me achar bonita no uniforme da escola. Eu estava totalmente insatisfeita com as dobrinhas na minha cintura, com as pequenas montanhas nas coxas chamadas culote, com as minhas pernas grossas que automaticamente inchavam meus quadris, e com os seios que, de um ponto de vista adolescente, eram maiores dentro do sutiã.

Eu tive problemas com meu corpo todo. Não aguentava ficar diante do espelho por muito tempo. Não conseguia usar biquíni e nem trocar de roupa na frente das amigas. Não estava acima do peso, mas as curvas me frustravam. Não via beleza nelas, só incômodo. Passei a querer mesmo, muito, parecer uma tábua. Sem coxas grossas, sem quadris largos, sem peitão. Nada! Lisa!

Um dos grandes responsáveis pela minha visão distorcida diante do espelho foi a mídia. Mais precisamente a MTV, antigamente a maior formadora de opinião no quesito cultura jovem no Brasil (não acho que seja mais. Virou muito produtinho adaptável). Lá, sabíamos tudo sobre nossos artistas, havia os incontáveis programas destinados a videoclipes e havia as premiações que contavam com reprises eternas – e isso incluía as que passavam na MTV gringa.

A mídia tem grande influência nas nossas vidas e eu fui afetada por ela na adolescência.

Com os já citados 15 anos, Britney Spears se tornou minha obsessão. Não apenas musical, mas corporal. Credito parte da culpa dos meus problemas de autoimagem a essa moça (quero dinheiro$$ de volta), porque passei a querer aquelas pernas finas, aquela barriga sequinha e aquela ausência de peitos (ela colocou silicone, mas, na minha mente, ela tinha o corpo que eu queria).

É ok admirar o corpo de outra mulher, achar que ela está com tudo em cima e confessar que, se fosse possível, tentaria chegar perto da medida dela – não igual, porque isso não existe. Eu poderia ter tido essa admiração saudável pela Britney. Mas não. Eu queria porque queria ser magrela daquele jeito. Até incluo a Sandy, outra aspiração da minha adolescência.

A vida poderia ter transcorrido bem, até ser virada de ponta cabeça. Mudei de escola, mudei de casa, passei a viver só com a minha mãe e com a minha irmã. Não sei quando a "Mia" me pegou de jeito, mas lembro de comer demais, me sentir absurdamente culpada e gastar horas na bicicleta ergométrica para compensar. Quando os resultados da perda de peso começaram, não vi minha atitude como uma anormalidade. Foi um: olha, você está emagrecendo, continue assim que tá sucesso.

Continuei, a bulimia me pegou pra valer e eu não fazia a menor ideia disso. Não tinha um computador incrível na época, a internet era discada, itens que dificultavam a busca pela informação. Eram meados dos anos 2000, banda larga ainda estava em fase de adaptação e não havia a quantidade de sites sobre o assunto como há hoje. Para piorar, não conheci nenhuma menina com um distúrbio alimentar para conversar ou para notar que havia algo errado comigo.

Então, nunca me dei conta de que estava mal acompanhada naquela época. Até porque não comia e vomitava. Minha mente me norteou para outros meios de punição.

Meu transtorno alimentar foi a Exercise Bulimia, ou seja, comia em excesso em diferentes picos, movida pelo desejo desesperado pela comida. Depois, rolava uma culpa esmagadora e tentava amenizar a crise com horas e horas de exercícios. 

Com 16, comecei a fracionar comida. Comecei a perceber que havia uma culpa fulminante dentro de mim quando comia em demasia. Ao menor deslize, surgiu o “hábito” de ficar horas e horas me exercitando até eu sentir que todas as calorias do que comi foram queimadas. Poderia ter cometido o tal escorregão lá pelas 23 horas da noite, não era desculpa. Não ia dormir até malhar.

Lembro-me dos dias em que arrastei o aparelho do quarto da minha mãe para o meu por causa de duas bolachas recheadas. Eu era movida por uma culpa tão grande que fazer o exercício não era um meio para me manter saudável. Era castigo! Fazia até o corpo não aguentar mais.

Era meu tipo de punição para “não se atreva a comer porque você precisa emagrecer”.

Esse photoshoot da Britney me marcou demais. Não só pela polêmica, mas pelo corpo maravilhoso dela, gente! Isso foi em 1999. Isso mudou quando o clipe "I'm A Slave 4 U" foi lançado. Parte da minha ruína com aquele corpo magrelo.
Até que minha mente começou a fazer uns cálculos bizarros que jamais saberia explicar de onde vinham. Na escola, sabemos que há as tentações alimentares. A vozinha na minha mente dizia: você pode comer, desde que seja antes das 18 horas – malditas revistas que diziam que comer depois desse horário engorda. Para manter o emagrecimento, me matriculei na academia que valia presença na aula de Educação Física na escola. Óbvio que me matava, levando em conta que só tinha um croissant na minha barriga. Isso para mim era muita comida.

Ou um clube social com suco. Ou um pacote de Trakinas. Era isso que comia e aniquilava no exercício. Se eu pisasse na jaca, era malhação até eu achar que tinha queimado tudo.

Se a academia substituiu a bicicleta ergométrica? Não mesmo.

Comecei a emagrecer muito rápido. Teve um dia que fui visitar minhas amigas na antiga escola e elas ficaram chocadas com a minha magreza. Não porque foi um emagrecimento súbito, mas porque emagreci demais e não tinha noção disso porque me achava obesa.

Havia dias que comia um pacote de Trakinas a tarde, ia para a academia queimar, e ainda chegava em casa e fazia a bendita bicicleta. Não comia mais nada depois disso – porque comer depois das 18 horas engorda. O que eu fazia para não comer? Dormia cedo.

O que não era complicado, porque meu organismo começou a enfraquecer sem eu saber.

O mesmo modo de operação se seguiu aos 17 anos. Os efeitos colaterais do que fazia começaram a vir aos baldes. Chegou um momento que não menstruava – e achei lindo, porque meu fluxo costumava ser muito forte, com dores insuportáveis. Quando vi meu absorvente limpinho em 24 horas, vibrei de alegria! Para mim, não ter o ciclo, foi uma vitória. Tipo, uma luz divina!

E mais uma motivação para não comer o suficiente e malhar em demasia, claro.

Depois, foram os cabelos. Caíam, demais, de passar só a mão quando ele estava seco e vir um tufo entre os dedos. Na hora de lavá-los, era um filme de terror. Se isso me abalou? Óbvio que não!

Minha ideia de autoestima era tão deturpada que o fato de perder cabelo também saiu como uma vitória. Tudo porque não havia um cabeleireiro que não reclamava de cuidar dos meus cachos. Então, com menos fios, havia esperança dele ser mais fácil de cuidar. Não era uma questão de ser liso, até porque, na época, Hermione Granger me inspirou a deixar o cabelo Luluzinha. 

Mas inventaram a progressiva e, de fato, cabelo chapado é mil vezes mais fácil de cuidar, uma descoberta linda para os dias de trabalho remunerado que se seguiram na minha vida – detalhes.

Para afundar ainda mais: inventei de ser vegetariana, sem acompanhamento médico.


Chegou a fase do cansaço e do excesso de sono que sinalizaram a fadiga. Não conseguia andar sem suspirar do meu quarto até a cozinha. Vivia escorada. Tarefas simples se tornaram difíceis. Andar no shopping era missão impossível. Até abrir os olhos era uma tortura.

Comecei a ficar muito abatida, fisicamente e emocionalmente. Tudo no meu corpo estava diferente, a pele uma porcaria, as unhas amareladas e quebradiças. Havia dores constantes nas pernas.

E uma tristeza que me deixava horas e horas de molho na cama.

A oscilação de humor também veio e foi quando minha mãe notou que havia algo de errado comigo. Mas jamais que ela saberia que eu passava por um distúrbio alimentar por debaixo dos panos.

Com 18 anos, um exame de sangue bastou: estava com anemia profunda. Por isso não menstruava, o cabelo caía, dormia demais, ficava cansada, as unhas ficaram amarelas e me sentia melancólica. O mais alarmante foi a conquista de um sopro no coração. Nunca questionei se isso teve um pouco a ver com o estado do qual me encontrava, mas, quando retornei, a médica falou que esse problema tinha sumido – embora continue a sentir algumas dores quando estou bem alterada.

Enfim, a médica me pôs em dieta que incluía suco de laranja e... Carne. Diante dela, não pensei sobre voltar a ficar bem, mas sobre o fato de que aquilo me faria engordar.

O tratamento deu certo, mas há certas coisas que voltam para nos assombrar.

Nunca sentei e falei do meu problema com a minha mãe, mas sei que ela não é trouxa. Ela sabia/sabe, mas compreende que sou uma pessoa que ao menor sinal de que perderá a defesa ataca com ferocidade. Fui monitorada para comer, me esforçava para comer também, porque comecei a me preocupar com meu coração.

Inclusive, fiquei apavorada com a ideia de estar a meio passo de ter um câncer. Porque bulimia tende a levar para esse caminho. Com minha anemia profunda, penso que isso seria batata. 

Só fui entender o que acontecia comigo dos 15 aos 18 anos quando pesquisei. Quando comecei a entrar em contato com esse assunto. O fato de não haver o vômito não me colocava, em tese, como bulímica. Por isso sempre ignorei que isso acontecia comigo. Era normal para mim comer e malhar.

Aos olhos de todos é normal comer e malhar, né?

Tudo correu bem até os 23/24 anos, mas veio a faculdade. Pressão. Insatisfação. Não me dava conta de que comia mais do que precisava por ansiedade ou por ter na mente de que um lanche não me faria engordar do dia pra noite. Mas engordei. Inchei mais em comparação ao peso que tinha na adolescência.

Obviamente que aconteceu a recaída. Além dos exercícios, abracei os laxantes.

Eu estudava no período noturno e chegava em casa por volta das 23 horas – algo familiar nesse horário? De novo, como um flashback da adolescência, não importava. Se tivesse comido no intervalo, eu iria para a esteira antes de dormir.

Uma hora de esteira e um comprimido de laxante. Punição.

Até que larguei o exercício por me sentir exausta – dormia tarde, o que me dava poucas horas de sono – e investi forte no laxante. Tão forte que só parei porque meu rim começou a gritar.

Foi então que o que aconteceu no passado rebateu na minha cara. 

Eu queria passar por tudo aquilo de novo? Me privar e me punir? Ficar doente? Entendam: mesmo “recuperada” da 1ª crise, nunca mais senti que meu corpo foi o mesmo. Nem o coração que, às vezes, parece que há uma faca rasgando-o, sinceramente.

Decidi que não e decidi perder peso dentro das regras. De uma forma saudável. Sem essa de que comer depois das 18 horas engordava, que doce era maligno e que pizza ia pra minha bunda.

E emagreci, lentamente, mas emagreci. Com 25 anos tinha me aproximado do meu peso correto levando em conta a minha altura. Não tive queda de cabelo. Nem menstruação interrompida. Nem mergulhei no ciclo vicioso da punição. Fiz alguns meses de academia – a contragosto e descobri o quanto odeio aquele clima. Usufruí da esteira que tinha em casa quando não queria ir.


Isso não quer dizer que não há marcas. Tenho muitas cicatrizes.

Fui uma criança que comia muito. No mercado, lá estava eu entupindo o carrinho de bolacha recheada. Isso fazia minha vida. Comer me fazia feliz até eu entrar na neura de que havia algo de errado com meu corpo. Amava praia até odiá-la, por exemplo. Tentei várias dietas que duravam até depois do almoço, já que no jantar comia tudo o que me privei. Algo na minha mente começou a dizer que comer era errado. Ao menos, comer muito.

Algo dentro de mim se partiu e passou a dizer que eu até poderia comer, desde que compensasse depois. Porém, havia dias que comia tudo que tinha na minha frente e a falta de controle gerava punição.

Acredito que é por isso que não consigo lidar diante de qualquer situação que saia do meu controle. É como segurar uma pilha de livros e, de repente, eles caem e você tenta pegar todos ao mesmo tempo. Com o insucesso, vinha a frustração. No caso, comer tudo me deixava muito mal por ter sido vencida pela comida. 

Nas vezes que me entupi, me sentia uma fracassada, uma imunda, uma gorda que não tem controle do que come. Essas sensações são reais que, contadas para alguém, soam como bobagem.

Nunca vomitei, embora tenha tentado incontáveis vezes. Não era o tipo de punição que me satisfazia, porque, na minha mente, comer e vomitar era muito fácil (sempre fui meio "tem que doer para a pessoa realmente sentir"). Senti a necessidade de ser mais cruel comigo mesma para entender que não deveria comer. Ou que, se comesse, teria que pagar com juros e correção calóricas.

Pegar a bicicleta, mudá-la de um lado para o outro, ficar sentada de 1 a 2 horas... Preguiça! Então, se dá preguiça, não coma ou não coma tanto, minha mente dizia. Vomitar não era uma sofrência quanto sentir os músculos dormentes de tanto malhar.

Além das cicatrizes, há uma palavra que me persegue, como persegue uma pessoa ex-alcoólatra ou ex-viciada em drogas: recaída. Quando a ansiedade, o nervoso, a frustração e a tristeza me desnorteiam, a comida é minha fonte de consolo. A ideia de ficar no sofá, vendo TV, comendo, me dava alergia na adolescência. Comer, comia, mas o que me preocupava era como me sentiria depois de ter comido. Por isso, dava um jeito de diminuir ou, se comesse demais, malhar.

Mas houve um tempo que, mesmo limpa, corria para a frente do espelho para medir o quanto meu corpo inchou em 24 horas. Às vezes, isso ainda acontece, quando meu emocional está no lixo. Mesmo bem, há dias que minha mente não para. Qualquer coisinha que me faça voltar a minha versão adolescente lutando contra um transtorno alimentar, entro em pânico. Como tonturas. Para vocês terem ideia, no ano passado fiz uma bateria de exames para ter certeza de que minha saúde estava no lugar. Feliz ou infelizmente, me tornei paranoica com esse tópico.

E esperar o resultado é uma agonia, porque tenho horror da palavra anemia. 

As pessoas acham que um distúrbio alimentar é uma questão de só voltar a comer ou parar de comer demais. Não é bem assim. É uma doença, um problema psicológico, físico e emocional intrínseca a realidade de quem a tem. Para tratá-la é preciso de uma equipe multidisciplinar e de muito amor.

Uma pessoa com anorexia ou bulimia jamais vê o corpo como realmente é. Literalmente, buscamos pelo enxuto. Se não atingimos, mais ficamos desesperadas em tê-lo. Nossa relação com o alimento muda, nos punimos, nos depreciamos sem ao menos notarmos. Quando as pessoas dizem que nosso corpo está bacana para nossa idade/estatura, achamos que é uma piada.

Criamos uma ilusão de que somos tão gordas. Pensamos que ser gorda é errado. Pensamos que ser gorda não nos fará tão felizes quanto ser magra.

Ter um transtorno alimentar não é algo que se escolhe. Não é algo que se quer para si. É um reflexo de várias coisas, desde ter alguém na família com um distúrbio, pressões externas, influência da mídia que sempre prega nossas insatisfações com o corpo e autoafirmação.

A mídia me impulsionou a querer ser perfeita. Eu era nova. Não tinha noção do que acontecia comigo. Agora, estou mais velha, e tenho plena consciência disso. Muitos não têm noção do que realmente é um transtorno alimentar. Do que é viver com um transtorno alimentar.

Ter lidado com esse tipo de bulimia é um dos capítulos mais marcantes da minha vida. É um daqueles que exigia muita coragem para falar, pois precisava superá-lo. Agora estou bem, mas há sempre o medo da recaída. Afinal, as pressões externas tendem a ser mais fortes que o autocontrole. Por isso, quando penso em me olhar no espelho para julgar minha imagem, percebo que não posso ingressar nessa montanha-russa cheia de curvas que podem não garantir o retorno.

Agora estou bem. Tenho plena consciência de que ser magra não me faz tão feliz quanto ser amada pelas pessoas que admiro. O que aconteceu comigo engrossou a minha voz para tratar sobre esse assunto que perturba não só adolescentes, mas mulheres feitas com seus 40, 50 anos. Não é um problema “meramente feminino”, pois há homens que passam pelo mesmo e, às vezes, não buscam auxílio por pensarem que é “coisa de menina”. 

Da mesma forma que a sociedade quer que mulheres sejam uma Barbie, a sociedade também quer que os homens sejam um Ken.

Eu tentei ser uma Barbie e fui infeliz. Se pudesse, aboliria qualquer transtorno alimentar do mundo. Não é uma forma de viver. Há depreciação, bullying, X coisas envolvidas. E, inevitavelmente, isso pode destruir vidas. Até mesmo, fazer vidas se perderem no meio do caminho.

Eu ainda estou aqui, bem, me alimentando e pisando na jaca quando me dá na telha. Sem culpa! Sem bicicleta ergométrica. Sem compensação. Emagrecer não é parar de comer. É reconhecer o quanto isso fará bem a sua saúde e ao seu bem-estar.

E se você chegou neste post e reconheceu alguns desses comportamentos, por favor, busque ajuda. Não deixe seu corpo chegar ao limite para retornar à superfície. 

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