O Capítulo da Doença Celíaca

22:35


+ Escrito por Mily Pedrazzi

2009 foi um dos piores anos da minha vida com relação a várias coisas, inclusive a vergonha da minha própria aparência.

Antes de mais nada, é preciso que vocês saibam que tenho uma doença conhecida como Doença Celíaca. É uma doença autoimune, que afeta o intestino de pessoas que não podem comer absolutamente nada que contenha glúten. Não existe cura para isso. A única forma de prevenir os danos causados pela doença é com uma dieta isenta do glúten. E é assim que eu vivo, desde 2009.

2009 foi o pior ano, porque foi quando a minha doença chegou ao auge. Quando o problema realmente se manifestou e eu fiquei realmente mal. Era meu último ano de faculdade e, para piorar tudo, eu estava enlouquecendo com a monografia (ou tcc, como a maioria costuma chamar). Jamais iria imaginar que minha perda de peso e dores de cabeça constantes estavam relacionadas a um problema alimentar e não ao estresse.

Eu também não iria imaginar que na faculdade, onde as pessoas teoricamente deviam ter a mente aberta, iriam me parar nos corredores para perguntar se eu estava com alguma doença grave ou fazendo uma dieta maluca. Há os que pensaram que eu estava usando drogas. Sim, eu ouvi de tudo.

Para que entendam o motivo do famoso bullying, vou explicar melhor. Meu peso normal é entre 53 e 55 kg. Um peso considerado normal, de acordo com a minha antiga nutricionista – uma pessoa incrível, que conheci depois que a doença foi diagnosticada.

Em 2008, comecei a emagrecer. Não foi um emagrecimento radical, mas eu já estava notando minha perda de peso.

Quem tem doença celíaca, ou conhece alguém que tenha, deve saber que um dos principais sintomas da doença é a diarreia e eu não tive isso. Os sintomas da doença se manifestaram com queda de cabelo, unhas fracas, mudanças de humor constantes (parece piada, mas eu conseguia me irritar e gritar com as pessoas por absolutamente NADA. E então, eu começava a chorar).

Também passei pela fase de pele horrível, anemia MUITO forte e dores de cabeça terríveis que me deixavam zonza a ponto de quase desmaiar. Os vômitos e dores de estômago constantes vieram por último, depois da pior fase de todas: a perda de peso.

De 55 kg, comecei a pesar 50, 48, 46 e até que cheguei aos 40 kg. Vi meu manequim ir de 38 para 36 e depois para 34. Eu estava magra, meu cabelo caía até com o balanço do andar e minhas unhas estavam todas quebradas. Eu estava fisicamente debilitada e tinha vergonha disso. Eu só saía de casa para ajeitar as coisas da faculdade e para o curso de inglês. O resto do meu tempo eu passava trancada em casa, sem fazer absolutamente nada.

As pessoas costumam achar que sua aparência está sempre relacionada a algo que você faz para você mesma. Ou você fez uma dieta maluca, que te deixou magra e sem saúde; ou o produto que você passou no cabelo foi ruim e te fez ficar com falhas na cabeça (a minha queda de cabelo na época dava para fazer uma peruca. Sem brincadeira). Ah, e claro, ou você está envolvida com drogas e as pessoas cochicham pelas suas costas sobre isso.

A parte das drogas é engraçada, porque meus braços estavam cheios de “picadas”.

Se tivessem perguntado, eu teria dito que as marcas eram por causa dos exames de sangue que eu estava me submetendo quase toda semana para que o médico pudesse “acompanhar a minha anemia”. Eu não sei como definir isso, mas era basicamente essa a razão: meu sistema imunológico estava um lixo e minha anemia estava superalta. Basicamente, eu estava morrendo e as pessoas achavam que eu queria apenas me encaixar no que chamam de “corpo perfeito”.

Ah, já me perguntaram se estava faltando comida na minha casa também. E eu chorava todas as noites quando chegava em casa.

É difícil acreditar que na faculdade as pessoas vão apontar e falar de você pelas costas, como se estivessem no colégio. Mas aconteceu e esse comportamento deles me fez acreditar que todas as pessoas do mundo estavam falando de mim e do quanto eu estava magra.

Foi no final de 2009, quando finalmente a doença chegou ao auge e eu comecei a vomitar quase todos os dias, que o médico viu a necessidade de fazer uma endoscopia e biópsia. Se todos os outros exames não apontaram a causa da minha situação deplorável, talvez a endoscopia pudesse descobrir algo errado.

E foi exatamente o que aconteceu. Meus exames acusaram que eu tinha a doença celíaca. Eu não podia mais comer nada com glúten e precisaria de um acompanhamento de nutricionista por um tempo, para que eu conseguisse recuperar meu peso.

Graças a Deus, consegui recuperar meu peso e minha saúde. Mas, preciso dizer que todo o bullying me fez ter pânico de emagrecer. Houve uma época da minha vida que eu realmente enlouquecia quando perdia 1 kg. Eu costumava (e às vezes costumo, não vou fingir e dizer que superei 100% o trauma) perguntar constantemente para minha mãe se eu estava magra demais. E quando eu achava que estava magra, começava a comer desesperadamente pra recuperar o peso que eu nem havia perdido, e aí eu passava mal porque tinha comido demais.

Eu nunca comentei isso abertamente com ninguém, porque as pessoas sempre acham que “ser magra demais é o que todas querem”, e não é verdade.

Eu estava doente e as pessoas não respeitaram isso, porque é mais fácil ficar falando da vida dos outros a tentar entender o que está se passando.

Hoje em dia, graças a Deus, posso dizer que estou bem. E eu gostaria muito de voltar ao passado, para a Mylene de 2009 e dizer: Calma. Não precisa chorar, você vai ficar bem. O problema não é você, são eles.

E de fato, quando alguém julga a sua aparência e fala ‘N’ coisas sobre você, o problema está com a pessoa que pensa que é legal ficar por aí falando absurdos.

Eu gostaria de poder dizer para você que eu nunca mais tive esse problema de ter medo de emagrecer, porque, às vezes, eu tenho. Às vezes, eu olho no espelho e vejo aquele reflexo de uma pessoa doente em 2009, sem saber o que realmente estava havendo e começo a chorar. Mas, aí eu lembro (e graças a Deus, quando não consigo sozinha, tenho pessoas que me amam para me lembrar) que está tudo bem. Que eu estou bonita assim e que não há problema nenhum.

O que eu quero dizer é: por mais que seja difícil, nunca tenha vergonha de você. Talvez soe como hipocrisia da minha parte, porque já me escondi do mundo várias vezes, mas acabei aprendendo e entendendo que o problema não sou eu. Algumas pessoas são simplesmente vazias e acham que podem ditar o que você deve fazer e como você deve parecer.

E eu também queria dizer pra você, que por acaso está lendo isso e descobriu agora que tem a doença celíaca, para não se desesperar. Você vai ficar bem e irá encontrar muitas maneiras de ter uma vida feliz e saudável (e sem glúten, claro).

Não tenham vergonha de serem vocês mesmos. E não deixem a forma errada como algumas pessoas te veem, seja a forma como você mesma se vê.

Seja feliz com o que você é. Tudo está bem. 

Lembre-se: você é linda de qualquer jeito. Estando em dia com a sua saúde, a aparência é o que menos importa na vida.

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