Uma carta aberta a temporada de biquíni

19:07


O post de hoje é uma carta aberta sobre a temporada de biquíni, período em que muitas mulheres surtam para ter o tal corpo perfeito para os olhos de quem estiver na praia (há uma linha tênue nesse tópico, já que não há nada de errado em cuidar de si mesma, mas entramos na questão de autoafirmação do ponto de vista alheio e isso não é bom).

Estamos no inverno, claro, mas o que me fez traduzi-la foi o fato de ser uma mãe preocupada com a filha. Uma criança que, na época da postagem, tinha 4 anos e já julgava a própria imagem corporal. 

Este texto foi um dos impulsos para a criação deste blog. É emocionante, cutuca lá no âmago e termina de um jeito digno de aplaudir de pé.


Uma carta aberta a temporada de biquíni

10 de maio de 2013


"Quantos posts sobre a temporada de biquíni encontrei na internet até então nessa primavera? Quantos guias de compras; regras para determinar quais frutas eu mais me assemelho? Quantas listas estão lá sobre roupas de banho e vestidos que são “apropriados” para meu tipo de corpo? Quanto tempo gastei em frente ao espelho, examinando as colinas suaves e as bordas irregulares do meu próprio corpo, puxando, prendendo, organizando e desejando que algo poderia ser diferente ou em outro lugar? Sou uma maçã? Uma pera? Uma ampulheta? Um frango assado?

Não amo meu corpo. Não o odeio também. É um instrumento capaz tanto do bem ou do mal. Faz coisas que gosto e não gosto. Às vezes, me deixa na mão. Na maioria das vezes, ele atua do jeito que preciso e sou grata. Fiz e alimentei dois bebês com ele. Ele me carrega para a floresta, para o meu trabalho, para o playground com meus filhos. Não é ornamental; É uma máquina. Sou sortuda.

Ontem, li um post escrito por uma estranha (uma mãe) sobre a temporada de biquíni e a necessidade de perder peso. Ela escreveu, indesculpável, sobre como ela quer ser magra.

Ela escreveu sobre quicar a comida até que estivesse magra o bastante para trajar um biquíni; ela escreveu que planeja consumir somente 3 shakes de proteína por dia até que esteja magra do jeito que deseja: magra o bastante para merecer aquele biquíni.

Como uma humana e uma mulher, entendo. É ok querer ser atraente (independente da sua definição sobre esse termo). Se há algo que você não gosta sobre si mesma, é totalmente da sua escolha mudar se deseja, do jeito que quiser. Não é meu problema ou de outra pessoa.

Como uma mãe. Uma mãe. Lembro-me de encontrar minha filha pronta para ir à escola em uma manhã de inverno. Ela tinha 4 anos. Ela deslizou seus bracinhos em seu casaco fofo de inverno e, de repente, começou a chorar. Perguntei o que havia de errado e ela virou seu perfeito e lindo rosto miúdo para mim e disse: esse casaco me faz parecer gorda. Chorei bem ali, naquele momento.

Meu coração doeu tanto por ela. Toda a frustração que sentia com meu próprio corpo e minha aparência brotaram naquele momento. Eu sabia exatamente como ela se sentia e estava mais que horrorizada por ela sentir o mesmo. Com 4 anos, minha filha estava preocupada com as pessoas que poderiam achá-la gorda.

Naquele momento, prometi que nunca, nunca, diria coisas negativas sobre o meu, seu, ou qualquer outro corpo. Em casa, na nossa vida familiar compartilhada, achamos que temos momentos privados, mas realmente não temos. Nossas crianças veem tudo. Elas nos vê pulando refeições e comendo pequenas porções. Elas ouvem as coisas que dizemos sobre nossas coxas gordas, nossos quadris achatados e nossos muito pequenos/grandes seios.

Elas nos acham lindas porque nos amam, e quando nos viramos e envergonhamos a nós mesmas, as ensinamos a fazer o mesmo.

Nós somos os padrões delas e elas são nossos espelhos, e nós nunca seremos capazes de lhes mostrar como aceitar a si mesma enquanto estamos muito ocupadas nos odiando.

Tento aceitar a mim mesma por elas. 


E, com relação a essa temporada, aqui está o que recomendo para obter um corpo de biquíni:

1. tenha um corpo e
2. coloque o biquíni.

Não importa qual é a fruta que você se assemelha. Você pode fazer o que diabos quiser. Não é legal?"


Tenho que concordar sobre a vivência familiar compartilhada. Achamos que as pessoas que convivem conosco não notam o que acontece além da porta do quarto, do banheiro ou da sala. Mas elas notam sim, só que, às vezes, não sabem como fazer uma abordagem.

Lembro-me que estava na cozinha, com uma cara nada boa, quando minha mãe resolveu confirmar a impressão de que havia algo errado comigo. Ela berrou e levantou todos os itens da minha mudança de comportamento: como morar praticamente no meu quarto e entrar em casa quieta e permanecer muda. A anemia que tive por conta da bulimia me abateu demais e pensei que o isolamento me ajudaria e disfarçaria meu problema (a parte do distúrbio, porque o diagnóstico da anemia veio depois desse surto da minha mama).

Só que se isolar chamou ainda mais atenção.

Crianças são muito perceptíveis aos arredores. Minha irmã ainda era adolescente quando me perguntou sobre meu transtorno alimentar, algo que jamais gostaria que acontecesse com ela. Viver um momento assim e usá-lo como combustível para ajudar outra pessoa não tem preço.

É importante ter conversa. É importante tentar ser um exemplo para que comportamentos que afetem a autoimagem e a autoestima não ocorram. Especialmente dentro de casa, perto de crianças ou de adolescentes. Afinal, eles absorvem a dinâmica do lar. 

Não é à toa que um distúrbio alimentar pode acontecer só de ver uma pessoa embaixo do mesmo teto sinalizar a doença ou se despreciar como se fosse bacana. 

Por isso, é importante uma mãe ou um pai ser um exemplo. Só assim para os filhos passarem pela turbulência da infância da adolescência com o bem-estar físico e mental nos conformes. 

Fonte: Tumblr.

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