Resenha | Likeness

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O filme abaixo contém imagens que podem ser perturbadoras a quem vê.

Muitas pessoas não acreditam que uma pessoa com um distúrbio alimentar “vê coisas” com relação ao próprio corpo e ao de outras pessoas – seja da vida real ou de uma celebridade. Esse é o insight do short film Likeness, debut de Rodrigo Pietro, estrelado por Elle Fanning.

Likeness aconteceu graças a um convite enviado ao Pietro, sobre criar um filme detentor de uma mensagem social. Na hora, ele pensou na história de Ximena, sua filha, que lidou com um distúrbio alimentar na adolescência. Juntos, criaram esse projeto de 8 minutos, sem diálogos.

Quando dei de cara com esse short film, hesitei por alguns segundos por causa do aviso de imagens perturbadoras. Não resisti e apertei o play. Elle Fanning foi a causa, pois quis saber o que mais ela tinha aprontado na carreira antes de Malévola (filme que não curti tanto a atuação dela). Em Likeness, a atriz me deixou de queixo caído. Ela não precisou dizer uma palavra para representar a agonia de ter problemas de autoimagem, um dos gatilhos para um distúrbio.

Pensei seriamente se deveria trazê-lo para o blog. Mas, considerando que tem muita mente insana que acha um distúrbio alimentar bobagem, acho que um choque pode ser dado. Já peço desculpas se soar como falta de tato, mas o intuito é conscientizar. Sempre.

Tudo começa com Elle entrando em uma festa, vendo, e sendo assistida, por vários modelos que foram inspirados nos recortes de revista que Ximena colecionou. Embora o distúrbio apresentado no short film seja a bulimia, Pietro afirmou durante o lançamento que a mensagem é mais que isso. Esse projeto também é sobre estar em uma sociedade em que nos sentimos julgados e que está nos julgando. A mais pura verdade, já que aplicar o shaming é o mecanismo de cruldade de muitos.

A garota nos norteia pelo ambiente até parar diante do espelho. Ela lida com a distorção de si mesma, não encontrando a tal perfeição, tendo em vista as mulheres do lado de fora do banheiro.

Há cenas fortes sim, mas por mexerem com nosso psicológico. 


Likeness também partiu do intuito de ajudar jovens a dizerem que se sentiram da mesma maneira que a personagem e que entendiam o que ela passa. Isso foi efetivo. Até eu me senti como ela e, quando terminei de assistir, pensei: é bem assim mesmo. O vangloriar do outro e o repudiar de quem somos.

Explicarei isso tendo em vista o que aconteceu comigo: comecei “a ver coisas” com relação ao meu corpo. Um ponto de vista distorcido. Um reflexo embaçado. Era como estar diante daqueles espelhos de circo que aumentam os braços, o rosto, etc.. Um espelho comum tinha esse poder e me via como um balão inflado que não era. Isso me impulsionou a ultrapassar limites.

Quando a magreza escapava por entre meus dedos, comia em um estopim, depois malhava me sentindo suja, fracassada... Uma Fera por não ter lutado um pouco mais contra a comida.

Atrelado a isso, passei a vangloriar a magreza sem saber o limite dela. Gisele Bündchen tem um corpo perfeito para a estatura dela, para o trabalho dela. Eu queria aquele corpo mesmo sendo curvilínea e baixinha. Para uma pessoa com distúrbio, o biotipo é a última coisa a ser pensada. Aquele assunto de peso ideal que é para deixar todo mundo saudável e não padrão passarela.

Esse short film mostra essas duas variantes tendo como inspiração modelos do mundo da moda. A intensidade da história se dá pela neura, na dificuldade de se ver como se realmente é, não a suposta Fera que aparece diante do espelho.

Outro ponto positivo foi a inclusão de homens na mesma problemática. Digo e repito: distúrbio alimentar não é coisa de mulher. Homem também passa por isso, mas não fala porque... “É coisa de mulher”. Meh!

Imagem: via Pinterest
A cena que machuca é a que Elle está diante do espelho. Sua personagem não se vê. Ela não enxerga a garota com o rosto liso, maçãs rosadas e com os cabelos sedosos. Uma garota linda à sua maneira. Ela se vê como uma Fera e fica desesperada em acarretar uma mudança visual, porque, em sua mente, ela não é como as mulheres que estão do lado de fora da festa.

Essa insatisfação que é o ponto alto de Likeness, e incômodo, ressaltando o quanto uma pessoa com distúrbio não se sente bem na própria pele. O quanto ela faria de tudo para estar em outra.

O mais incrível é o retorno da personagem ao mundo real. Ela age como se nada estivesse acontecendo, e é bem assim mesmo. Basta um sorriso e um dar de ombros, que está tudo bem.

Quando disse que é “bem assim mesmo” é porque a mente de quem tem um distúrbio trabalha de uma forma que, acredito eu, é impossível de explicar. É sensível demais. Particular demais. Os gatilhos são diferentes para cada um. Por ser difícil descrever, muitos ousam a dizer que é frescura, como se fosse um passatempo a pessoa se limitar a comer ou comer demais para se punir depois.

Dizem que nossa mente é o lar de vários demônios e é verdade. Digo por mim: não conseguia me ver magra, de uma forma que eu me olhasse no espelho e dissesse: “assim tá bom”. Via-me inchada, com dobras aonde não existia. Até uma gordurinha no pé da barriga que permaneceu quando emagreci era um tormento porque ela não saia nem com milhões de abdominais.

Fazemos isso porque alimentamos a ideia fixa de que ser magra/o é sinônimo de ser feliz. E queremos ser felizes dessa forma. Por essas e outras a intervenção também conta com amparo psicológico. Não é apenas uma internação para fazer as pazes com a comida. É eliminar também a erva daninha que insiste em sussurrar que comer mais ou menos é errado.

Como disse, não queria trazer esse short porque ele é pesado. Juro que não consegui tirá-lo da cabeça por ter me visto na personagem de Elle, especialmente no momento em que ela está parada diante do espelho. Simplesmente porque, quando estamos doentes, não nos vemos como realmente somos. Vemos defeitos que o espelho parece aumentar e a autodestruição segue, incontrolável.

Likeness é muito honesto. Retornei facilmente aos vários momentos em que parei diante do espelho me sentindo uma Fera. Cutucando partes do meu corpo, murchando a barriga – que já estava murcha – caçando motivos para ficar mais magra – sem consciência de que já estava magra demais.

Esse short film também é um dos impulsos que me fez ter mais coragem para fazer este blog. Continuo com a sensação de que não deveria tê-lo mostrado, mas é um trabalho excelente, retrata uma verdade, um wake up call para qualquer um que se sinta da mesma forma. Um trabalho curto, que transmitiu o que queria com perfeição, e a atuação de Elle está impecável.

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