Até acontecer comigo...

13:37


Quando ouvi e vi o videoclipe de Till It Happens To You da Lady Gaga foi o mesmo que estar diante de todos os meus pontos de fraqueza e isso despertou alguns gatilhos. Fiz uma viagem até a adolescência e revi, sem querer, algumas circunstâncias das quais moldaram quem eu sou agora. 

Para o bem ou para o mal, estou aqui, depois de ter lidado com várias coisas que afetaram minha integridade e minha saúde mental. E ainda estou aqui lidando com elas, muitas vezes, em silêncio. A música me despertou várias coisas, muitas reais, porque é bem fato que o que aconteceu comigo me deu o direito de erguer o dedo em riste e silenciar quem diz o que nem deveria ser dito.

Até sofrermos um grande impacto, vivemos no modo Tomé: só acreditamos vendo. Modernizando um pouco essa frase: só acreditamos quando acontece conosco. Essa sensação costuma rebater na impressão diária de que estamos seguros. Que nada atingirá nosso teto de vidro, pois não vivemos necessariamente nas circunstâncias que determinados atropelos se desenrolam. 

Vivemos, e não é de hoje, em um mundo em que muitas pessoas não olham ao redor e tratam assuntos sérios com um Q de ironia e um revirar de olhos tedioso. A partir daí, nascem as respostas prontas: “usou decote, é porque pediu”, “se tem esse tal de transtorno alimentar, só comer um pratão de comida que passa”, “se está triste, chama para sair e tomar umas biritinhas que tudo fica bem”, “se está gorda é porque é descuidada”. Tenho certeza que alguém ouviu isso diretamente na vida.

Quando digo diretamente é alguém parar na sua frente e dizer isso na sua cara e, sem seguida, emendar com um sorriso cretino carregado de arrogância. Como se essa pessoa soubesse de todos os segredos do universo. Eu perdi as contas do quanto isso aconteceu, e acontece, comigo.

Não olhar ao redor é algo certo para muitos. Se eu estou bem, por quais motivos me preocuparei com quem está mal? Por isso, há muitos que não se dão ao trabalho de se colocar no lugar do outro. Se não aconteceu comigo, o problema não é meu, certo? Vale mencionar aqueles que são realmente alheios e são os que sofrem até mais com vários impactos por não terem discernimento. 

Sim, vivemos nessa espiral de duvidar de tudo e de todos. De desacreditar. De encontrar respostas prontas na tentativa de fazer alguém se sentir melhor – e só piorar o quadro. Essa atitude tende a mudar quando algo terrível acontece conosco ou com alguém que amamos ou com um conhecido. Porque uma ideia tão distante se torna real por ter ocorrido bem próximo da sua redoma de vidro. 

No meu caso, foi contra a minha redoma. O que aconteceu comigo me mudou. Vivia bem, muito bem, até ver meu teto trincar e se desestabilizar.

A experiência me fez morrer de raiva com a falta de empatia que existia quando eu fui adolescente e ver o mesmo continuar agora – e acho que está pior – me deixa desgostosa. Não entendo essa falta de sensibilidade que fortalece o modo de operação do ver para crer – e há quem veja, mas se faz de cego. 

Como diz a música da Lady Gaga: até que aconteça com você, não será real. 

E não será mesmo. Se deveria? Tenho meus contrapontos, mas penso que não devemos esperar acontecer para tomar uma atitude. As batalhas estão aí, cabe a cada um escolher uma ou várias. Não é porque não aconteceu com você que a treta também não é sua. É tão sua quanto minha.

Tenho amigas que passaram por várias coisas ao longo da vida e não cabe a mim enumerá-las aqui. Isso me mudou, tão quanto o momento que vivi no “até acontecer comigo”. 

Não é novidade para ninguém que lidei com a bulimia e farei um novo aceno – porque é a única coisa que tenho coragem de falar abertamente até então. E é ainda um capítulo muito presente na minha vida, pois, de uma forma bizarra, ainda gera alguns comentários.

E até hoje não entendo o motivo. Porque, na época, silenciei o que aconteceu comigo por vergonha. 

Hoje, essa experiência é o meu direito de colocar o dedo em riste e indagar: o que diabos você está dizendo? Você não sabe de forma alguma como me sinto. Você não sabe o que é se olhar no espelho e se ver como a pessoa mais horrível do universo. Você não sabe o que é machucar a si mesma e ainda viver  uma treta interna para não ter uma bendita recaída.

Se você não sabe, não ouse tratar com ironia ou olhar de desdém. Empatia. Sempre. 

Por essas e outras que muitas não falam o que aconteceu com elas. Pela vergonha, pelo medo, pela retaliação, pelas respostas prontas... Isso, em vários âmbitos. Desde quem sofreu o abuso ou teve que engolir piadinha sobre problemas de autoimagem.


Para vocês terem ideia, quando vem certas visitas aqui em casa tenho que fazer meu prato na frente de todo mundo. Sim, 2015 e não deveria fazer isso, mas faço. Não para autoafirmar que o distúrbio não existe mais, ele existe porque é parte da minha história e não é algo que se supera, mas para silenciar. Meu prato de comida é um espetáculo, vira a sensação do momento. Juro pra vocês.

Até hoje, também não entendo, mas posso encontrar uma única justificativa para tanta bobagem: o fato de ter emagrecido do final de 2011 para o meio de 2012. Não estava absurdamente acima do peso, mas tinha dificuldade de fazer coisas minúsculas. Nessa época, até meu coração berrava, porque, com o transtorno, conquistei um sopro para toda a vida. 

Acho isso particularmente engraçado, porque essas pessoas não sabem o que é um transtorno (só existe anorexia para elas) e não viram o que passei em 2002/2003, época que perdi peso em 3 meses. Uma perda rápida que chocou as minhas amigas da época, algo que não aconteceu nos meus 24/25 anos porque aconteceu devagar, de forma saudável. Mas cadê que me perguntam?

Essas pessoas se divertem com o que tem no meu prato. “Bota mais que está pouco”, costumo ouvir. Teve uma vez que enchi demais e não consegui comer porque era muita, muita comida. Fiz praticamente uma montanha em um prato médio, quase transbordando para os lados. Fiquei muito mal com isso, porque estava no modo de operação do outro, para silenciar o outro que não fazia ideia do que dizia. 

Tem gente que desacredita que uma pessoa magra come pra caramba e discursa o shame. Passei por esse mesmo shame – de vários – quando estava gorda, mas era “bota menos que tá muito”. 

Às vezes, penso que o que aconteceu comigo não é tão importante quanto outras histórias que escuto e que escutei das mulheres que conheço. Porém, lá no fundo sei que o que passei é tão sério e igualmente ignorado. Imaginem, uma adolescente de 16 anos com um distúrbio silenciado porque nem sabia o que diabos estava provocando contra si mesma. Como ajudar essa pessoa? É difícil, porque vivi ao redor de céticos e que veneravam a magreza. Então, deixa ela perder tudo e ok.

O que ninguém sabe é que distúrbio alimentar não se cura com um prato de comida. É uma doença que afeta vários âmbitos da vida, como a saúde mental. Muitos não sabem qual foi o primeiro gatilho, que é o que as levam por esse caminho estreito. De uma hora para a outra, você está lá. Passa os meses e tudo se intensifica. É uma bola de neve que se não houver pedido de ajuda não há quem saia. Eu só saí porque fiquei seriamente derrubada. 

Isso aconteceu comigo e me deu chance de ser empática com quem passou/passa pelo mesmo. Penso que se não tivesse acontecido comigo, não daria tanta atenção. Ainda mais porque a influência dos meus pais quando eu era mais nova foi meio torta. 

No fundo, acredito que o mundo não deveria funcionar assim. De acreditar em algo só quando acontecer, porque muitas coisas acontecem o tempo todo. A informação está prontinha para ser acessada, mas a despreocupação gerada pelo “não acontece/aconteceu comigo” só gera descaso.

Não deveríamos funcionar a base do “até acontecer comigo”. Enquanto estou bem, sei que há várias meninas e mulheres passando pelo mesmo que eu passei. E elas não querem ouvir que só precisam de um prato de comida para tudo passar. Não passará! Quem vê, independente de ter passado por isso, deveria dar a chance de saber o que realmente acontece. De dar apoio.

É bem verdade que todo mundo acha que está protegido em seu quadrado, nem sempre de uma forma egoísta. É automático nos sentirmos seguros quando nada de terrível acontece. Quando um impacto não nos estapea em um momento inesperado. Quando o eixo se altera, prestamos mais atenção. Ficamos mais atentos. Ao menos, é o que se espera. 



Elas acontecem e ninguém pede por isso. Há meninas que não usam decote e são estupradas. A menina que está feliz por dentro está gritando. A menina magra deve ter passado por muito para ter esse corpo. Vivemos mergulhados em impressões e suposições que impedem a visão completa do quadro. Enquanto isso... Ela está bem. Logo passa. E assim a vida segue. 

Infelizmente, a reflexão sobre determinadas pautas geralmente rola quando acontece com a gente ou com alguém que conhecemos e consideramos muito. Simplesmente porque partimos daquele pensamento que nossa bolha está nos conformes e por estar nos conformes será difícil acontecer qualquer coisa que afete nossa integridade ou nossa saúde. Todo mundo (assim espero) sabe das próprias responsabilidades, como ser um cidadão de bem... Então, nada de ruim pode acontecer. Mas acontece. 

Enquanto houver vida em você, você está suscetível. Fim.

Claro que isso não é uma opinião generalizada. Há quem não passe por várias coisas e é naturalmente empático. Dá força. Se alia. Escuta e discute. Por mais pessoas assim.

O que aconteceu comigo ainda me deixa em alguns momentos bem arrasada. Você supera em partes e não há essa de “você ficará bem” ou “é só erguer a cabeça” ou “ser forte”. É um acontecimento que sempre volta. Está ali, dentro de mim, uma cicatriz mais profunda que outras, e permanente. E tenho certeza que muitas que passaram/passam por isso, e coisas piores, sabem muito bem o que quero dizer.

Não é algo que simplesmente se elimina e não superamos completamente. Vive escondido, só esperando o momento da recaída ou do rememorar para nos engolir por inteiro. 

Essa é uma das minhas experiências e ninguém sabia o que passava. E ainda passo com outras coisas que aconteceram comigo e que nunca falei por aí. O distúrbio não me preocupa mais. O que me preocupa é saber que essa desimportância ainda existe, porque todo mundo espera acontecer consigo mesmo ou com alguém para crer que algo é real e visceral. 

Muitos não veem o que é rachado por dentro quando se enfrenta um distúrbio alimentar, ou ao ser estuprada, ou ao lidar com a depressão e ao contornar crises de ansiedade e pensamentos suicidas. Ninguém precisa ver acontecer ou ser um especialista. Como o videoclipe da Lady Gaga bem mostra, basta estar lá. Quanto menos pessoas presentes, mais viveremos nesse ciclo do ver para crer, do descaso, do “aconteceu só uma vez, logo passa” ou “ficará tudo bem com o tempo”. 

O "até que aconteça com você" é o que tem impedido conversas para quebrar tabus e estigmas. Principalmente, chamar a atenção. Enquanto não mudarmos comportamentos, todos – e vários – tópicos ainda serão ignorados, tratados com superficialidade ou sensacionalizados. Tratados como frescura ou bobagem. 



Você é uma pessoa responsável por uma mudança. Quanto mais você ignorar e não se opor sobre assuntos que impactam nossa vida em sociedade, o mundo permanecerá no mesmo eixo. E isso vale para o seu caráter... Sua vida aqui. Lembre-se que você continuará sucestível, querendo ou não. Ninguém está no lugar certo na hora errada. Ninguém provoca coisas ruins contra si mesmo ou pede que elas aconteçam. 

Minha experiência com o “até que aconteça com você” tem vários degraus. E agradeço agora, como adulta, por várias coisas ruins que aconteceram quando eu era adolescente. Ainda machuca, mas canalizei como força. Não são todas que conseguem, mas sobrevivem à sua maneira.

Quando paro para pensar, acredito que não teria equilíbrio para suportar certos acontecimentos se estivesse com a idade que tenho agora – e estou viva e ainda corro riscos como qualquer outra pessoa. Mas tudo que enfrentei me moldou e tenho mais discernimento para lidar e conversar. Para simplesmente ser protagonista de uma causa ou uma aliada de outra. 

"Até que aconteça com você" é o ver para crer, como disse lá em cima. Não serei hipócrita, pois muitas coisas das quais eu entendo agora foi porque vi acontecer. Porém, nunca fui insensível sobre tópicos que não aconteceram comigo. Sempre abracei as bandeiras que pude e nunca hesitei em ser uma aliada. Pode não ser minha batalha, a minha rachadura, a minha cicatriz, mas eu estarei lá. 

Vivi com um distúrbio e sou capaz de entendê-lo. Sei a sensação. Sei os altos e baixos. Parte de mim agradece sim por ter vivido certos momentos tão cedo, porque me tornei uma pessoa melhor e atenta. Não espero mais acontecer comigo para olhar para o que aconteceu com o próximo. 

Ninguém sabe a dor do outro, é verdade. Mas é só estar lá. Dar a mão. Fazer companhia. Respeitar, ouvir e entender. Não afastar e reforçar a culpa e a vergonha. Seja pelo abuso, pela depressão, pelo distúrbio, precisamos estar lá. Pode não ter acontecido com você ou com alguém que você ame, mas se houver sinais ou realmente aconteceu, esteja lá. 

Não devemos esperar até que aconteça conosco ou com alguém para nos conscientizarmos e quebrarmos estigmas e tabus. 

You Might Also Like

0 comentários

Tecnologia do Blogger.